Bem-aventurados os Fracos

Texto que eu coloquei aqui 23/12/2004, e que li novamente hoje. 
É grande mas vale a pena ler até o final.

Bem-aventurados os Fracos

Ricardo Gondim

Passo por uma fase em que meus valores vêm mudando muito. Ultimamente sinto
atração pelos fracos, pelos caídos e pelos desafortunados na vida. Tenho
vontade de gritar: chega de campeões, chega de relatórios bombásticos, chega
de testemunhos de vitória. Cada vez mais venho aprendendo a partilhar da
felicidade dos que não faziam parte de meu universo. À medida que envelheço,
percebo nuanças que meus olhos juvenis não enxergavam.

São bem-aventurados os que não têm pedigree. Afortunados os que vêm de
famílias pobres e por isso podem cantar, como Luis Gonzaga: "Ai, Ai, que
bom/ que bom que é/ Uma estrada e a lua branca/ No sertão de Canindé/
Automóvel lá nem sabe se é homem ou se é mulher/ Quem é rico anda em
burrico/ Quem é pobre anda a pé/ Mas o pobre vê nas estradas/ O orvalho
beijando as flores/ Vê de perto o galo campina/ Que quando canta muda de
cor/ Vai molhando os pés no riacho/ Que água fresca, nosso Senhor!/ Vai
olhando coisa a granel/ Coisa que, pra mode vê/ O cristão tem que andar a
pé". Esses serão amigos de gente como Jefté, filho de uma prostituta; de
Davi, excluído por seu pai e irmãos; de Nelson Mandela, que viveu sem calçar
sapatos até quase a vida adulta. Eles são felizes porque não nasceram de
pais frustrados com o seu quinhão na vida. Assim, sem rédeas manipuladoras,
puderam optar por vocações, dar vazão a talentos e seguir por sendas que não
se prestavam a satisfazer o ego ou as expectativas dos que precisam se projetar
em crianças indefesas.

Bem-aventurados os que não são belos. Felizes os que não se conformam aos
parâmetros estéticos da sua geração. Essas pessoas precisam vencer os
preconceitos mais sutis, que valorizam a beleza da pele e esquecem os
valores do caráter. Elas são afortunadas porque precisam de uma têmpera
diferente para vencer. Quando se candidatam a um emprego, sabem que não
impressionarão pela cor dos olhos nem pelos seios volumosos. Essas pessoas
trabalharão com mais afinco, valorizarão o suor que brota pela persistência,
pois não vivem iludidas pelo reflexo que matou Narciso. Elas serão amigas de
Lia, cuja beleza não se comparava à de Raquel, e entenderão o provérbio
bíblico: "A beleza é enganosa, e a formosura é passageira" (Pv 3.10).

Bem-aventurados os deficientes físicos, os meninos com síndrome de Down e as
meninas com paralisia cerebral. Suas vidas valem muito para os seus pais;
seus sorrisos são valiosos e suas existências, uma constante lembrança de
que os padrões da normalidade são mais largos do que essa geração hedonista
admite. Eles nos lembram de que nossa existência não é um passeio
despretensioso e que não podemos viver na ilusão do eterno prazer. A
felicidade dos deficientes que disputam as para-olimpíadas, de Hellen
Keller, que, cega e surda, graduou-se em universidade, e Ray Charles, que
nos encantou com sua voz maravilhosa, tem um peso diferente do riso soberbo
dos ricos e dos poderosos.

Bem-aventurados os que já pecaram, os que já deram vexames, os que já se
desviaram da vontade de Deus, mas voltaram arrependidos tal qual o filho
pródigo. Esses não têm o coração altivo, não se sentem merecedores de coisa
alguma. Vivem dependentes da misericórdia; jamais teriam coragem de reclamar
seus direitos. Os perversos mais malignos são pessoas que nunca
transgrediram, que jamais erraram; portanto, não sabem como é a dor da
maldade, não conhecem a culpa do mal praticado. Mas aqueles que já amargaram
o fracasso são felizes, porque celebram a graça; não esquecem que se não
fosse o favor de Deus, há muito já teriam perecido. Eles caminham ao lado de
Abraão, que mentiu, de Moisés que matou, de Davi, que adulterou, de Pedro,
que negou, e com eles repetem: "Suas misericórdias duram para sempre". Só
eles podem dizer, como a virgem Maria: "Minha alma engrandece ao Senhor e o
meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, pois atentou para a humildade
da sua serva" (Lc 1.46-48).

Bem-aventurados os que nunca experimentaram grandes vitórias e vivem sem
grandes arroubos. São eles que não nos deixam esquecer que a maior parte de
nossa existência acontece no contexto da rotina. Eles são felizes porque
souberam viver sem a fadiga dos ativistas cheios de adrenalina. Vivem
despretensiosamente ao redor de pessoas amadas e não se sentem obrigados a
carregar o mundo inteiro em seus ombros. Não deitam a cabeça no travesseiro
para acordar no dia seguinte com olheiras. Eles são felizes porque souberam
caminhar pela existência sem desejos grandiloqüentes, sem ambições ou
invejas. Eles serão parceiros de João Batista, José, Bartolomeu, Joana, e
tantos outros discípulos de Jesus, cujas vidas aconteceram no anonimato.

Bem-aventurados os que não precisam viver uma vida sempre coerente. Eles
sabem que estamos sempre em fluxo, que mudamos e precisamos abrir mão de
verdades a que no passado já nos apegamos com muita firmeza. Eles não são
dogmáticos, intolerantes nem legalistas. Essas pessoas são felizes porque
nos lembram que o amor nos tornará incoerentes e imprevisíveis e que o
nazismo montou-se sobre uma pretensa lucidez filosófica.

Bem-aventurados os que não sentem a cobrança de uma divindade infinitamente
exigente. Eles podem ser eles, mesmos quando se percebem diante de Deus; não
se amedrontam por serem imperfeitos ou por carregarem complexos e traumas
interiores. Não temem a rejeição de Deus e por isso não precisam encenar uma
espiritualidade plástica e afetada. Eles também ouvirão a voz que afirmou
Jesus no dia do seu batismo: "Este é o meu filho amado em quem o meu coração
está satisfeito". Felizes os que nos ensinam que viver em intimidade com
Deus significa saber que ele está satisfeito conosco e que não precisamos
nos provar, pois seu amor não depende de nossa perfeição.

Bem-aventurados os que não se comparam aos poderosos nem invejam os
triunfantes. Eles captam o significado do Poema em Linha Reta, de Fernando
Pessoa, e sabem que é falsa a pretensão daquele que alardeia ter sido
campeão em tudo. Reconhecem que o poeta está correto quando afirma: "Estou
farto de semideuses". E, em parceria com Pessoa, também clamam: "Quem me
dera ouvir de alguém a voz humana". E, como ele, também gritam: "Arre, estou
farto de semideuses. Onde é que há gente no mundo?" Esses serão amigos de
Paulo, que mesmo no fim de sua vida, afirmou: "Eis uma verdade digna de toda
aceitação; Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal".

Assim, os meus novos heróis são pessoas que sempre estiveram ao meu redor e
que nunca percebi. Agora vejo que nunca dera conta de que eles são descritos
no Sermão da Montanha. Admito que essas constatações chegaram muito tarde em
minha vida; contudo, espero que você aprenda a reconhecer os verdadeiros
heróis antes do que fui capaz. Se conseguir lhe ajudar nessa tarefa, eu
também me sentirei bem-aventurado.


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